Fescete 30 anos

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TEMA

[…]Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
(“A flor e a náusea”, Carlos Drummond de Andrade)

Pedimos licença a Drummond para adaptar seus versos à nossa realidade: “Uma flor nasceu no palco”, alerta a 30ª edição do FESCETE. E, ao escolher trocar uma palavra da frase original, nos perguntamos: quantos palcos há na rua? E o quanto da rua habita o palco? No espaço urbano ocupado pelo FESCETE (Santos e região) e pela Cia. Mungunzá (São Paulo), quais as possíveis relações que estabelecemos com a(s) cidade(s)? A flor drummondiana choca o poeta porque abre novos caminhos em meio ao trânsito — um mundo novo de possibilidades, uma tímida cor que contrasta com tons de cinza, uma esperança em meio ao caos.

De nossa parte, é possível afirmar que uma flor nasceu no palco há trinta anos, quando Pedro e Karla decidiram criar este festival. Mas ela também nasceu em 2008, quando artistas-criadores inquietos fundaram a Cia. Mungunzá. Em 2017, essa mesma flor nasceu mais uma vez quando a companhia construiu o Teatro de Contêiner Mungunzá, espaço que resiste contra a especulação imobiliária e o ataque à cultura — há quem tente podar essa flor, mas ela se prende pelas raízes e se faz presente por vocação (flor tem vocação? Gosto de pensar que sim). Há flores que nascem no espaço ritualístico do palco italiano, há flores que nascem no teatro de rua que ocupa a cidade, no chão dos artistas que performam nas praças, há flores itinerantes que os circos deixam nos solos por onde passam, flores que são nascidas e renascidas cada vez que a arte se infiltra no nosso cotidiano.

Diferentemente da descrição que Drummond faz no poema, nossa flor não é feia. Pelo contrário, é de uma beleza singular em cada detalhe, porque se presta a denunciar, provocar, refletir e expor cada mazela da nossa sociedade, mas de uma forma impregnada de sensibilidade e boniteza. Acima de tudo, o que a nossa flor e a de Drummond têm em comum é o fato de ambas nascerem apesar dos obstáculos, como força inevitável da natureza (ou da natureza humana?) que irrompe em meio à cartografia urbana na esperança de atribuir-lhe afeto — tarefa utópica e quixotesca (que maravilha!). Sem espera, sem permissão e sem servidão. O maior valor de uma flor é existir, porque sua simples existência já justifica a própria empreitada, afinal, retomando pela última vez o poema de Drummond, podemos nos orgulhar em dizer que essa artística flor “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Marcelo Marinho

HOMENAGEM

Trinta anos não são apenas três décadas. São gerações de artistas que tiveram no FESCETE a primeira fresta para o palco, são plateias que se formaram assistindo a inquietude alheia, são encontros que só a memória do teatro é capaz de guardar. Quando criamos este festival, não imaginávamos que ele se tornaria esta árvore de muitas raízes — um mapa afetivo que se desenha ano após ano, costurando Santos de ponta a ponta com a energia viva da cena teatral. Hoje, ao olharmos para trás, vemos não uma linha reta, mas um emaranhado de caminhos possíveis: ruas ocupadas, espaços, palcos consagrados que já receberam centenas de trabalhos. O FESCETE é, antes de tudo, um território conquistado a muitas mãos.

Nesta edição histórica, nosso olhar se volta com especial afeto para a Cia. Mungunzá de Teatro, parceira do fazer artístico. Há algo de profundamente simbólico em celebrar juntos: o festival que insiste em florescer há três décadas e a companhia que, desde 2008, cultiva sua própria maneira de fazer teatro, enfrentando os mesmos desafios que nos movem. A trajetória da Mungunzá nos lembra que o fazer teatral é também um ato de construção de cidade. Se o asfalto insiste em endurecer, eles respondem com a leveza de quem sabe que a arte é morada possível.

Que os 30 anos do FESCETE sejam celebração, mas também renovação do compromisso com o teatro que nasce onde menos se espera. Que aquilo que plantamos juntos — festival, companhias, artistas, público — continue reafirmando, a cada edição, que o palco é nosso e a cidade também.

Karla Lacerda, Júlia Norato e Pedro Norato

Currículo da Cia Mungunza

Cia. Mungunzá de Teatro (São Paulo/SP)

A  Cia. Mungunzá é uma das companhias mais inovadoras do cenário teatral brasileiro. Criada em 2008, o grupo desenvolve a dezesseis anos uma pesquisa cênica continuada, alinhando arte, cultura e vida, construindo uma narrativa e uma linguagem autoral, com montagens de peças com grande poder de comunicação com o público.

A Mungunzá firmou-se como grupo que trabalha com diretoras e diretores convidados, fator que ajuda a manter os processos cênicos vívidos. Na sua pesquisa busca a  polifonia e o hibridismo das linguagens artísticas, propondo a encenação como dramaturgia e o ato performático como atuação. Fomenta o fazer artístico como prática política e social.

O grupo extrapola suas fronteiras ao criar em 2017, o Teatro de Contêiner Mungunzá, uma ocupação artística, sede do grupo, que atualmente é um dos espaços culturais mais pujantes da cidade de São Paulo, que está reverberando mundo afora com sua potente e poética gestão cultural de impacto em contextos de extrema vulnerabilidade social, somada a sua arquitetura sustentável, transformadora e comunitária.

Sinopse do espetáculo “ElÔ

ELÃ

SINOPSE
Em uma espiral do tempo, oito histórias se cruzam em camadas sobrepostas. Cabe ao público escolher seu ângulo, e montar a teia da narrativa. Um andarilho, dentro de um jogo de videogame através dos diferentes tempos da linha da sua vida, tenta se livrar de uma herança ancestral deixada pelo seu pai // Um ator e vendedor de morangos tenta convencer uma renomada diretora a dirigir seu próximo espetáculo, incluindo sua mãe no elenco // A mãe entra no espetáculo dirigido pelo filho e, cena após cena, vai se libertando do papel que lhe foi imposto // Uma mulher, após construir uma família de alta performance, decide matar a  família, para realizar seu sonho de ser cantora de boate, honrando sua avó, vítima da Guerra Civil Espanhola // Uma mãe, enquanto enfrenta o luto e cria os filhos, reacende a sexualidade reprimida em suas ancestrais, através de uma retomada do poder feminino // Um homem descobre, na morte, o maior empreendimento capitalista de todos os tempos: a empresa “Animador de Velórios” // Uma mulher, convencida de ser uma aranha tecendo o destino do mundo, tenta impedir uma explosão, voltando no tempo e manipulando cada passo dos envolvidos // Um homem-bomba, ao se explodir, deixa pistas para sua filha, guiando-a por um outro olhar sobre o mundo.

FICHA TÉCNICA
Uma produção da Cia. Mungunzá de Teatro
A partir do Livro de Linhas
Direção geral: Isabel Teixeira
Assistência de direção e preparação de elenco: Lucas Brandão
Elenco criador: Dilma Correa (convidada), Léo Akio, Lucas Bêda, Marcos Felipe, Pedro das Oliveiras, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias
Participação especial: Gregório Modesto de Oliveira e Miranda Caltabiano Bannai
Dramaturgia a partir da Escrita na Cena®: elenco criador e direção